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ÑAQUE OU SOBRE PIOLHOS E ACTORES de J. S. Sinisterra

SOBRE A OBRA   

“Heis-de saber, meus senhores, que há oito tipos de companhias e de representantes, todas diferentes : bululú, ñaque, gangarilha, cambaleo, garnacha, bojiganga, farândula e companhia (...); ñaque são dois homens que fazem um trecho dum auto, um entremês e dizem umas oitavas e duas ou três loas. Cobram a oitavo, vivem contentes, dormem vestidos, comem como esfomeados, despiolham-se no verão entre os trigais e, no inverno, com o frio, não sentem os piolhos.”

Esta conhecida passagem -e mais algumas páginas- do livro de Agustín de Rojas Villadandro “El viaje entretenido” (1603) constituem o núcleo germinal do texto “Ñaque ou sobre piolhos e actores”.

Texto ao mesmo tempo simples e complexo, uma vez que, articulando-se em torno de uma única situação de diálogo, encadeia uma variada gama de subproductos literários do Século de Ouro espanhol, farrapos de uma cultura popular que raramente acede aos museus do saber estabelecido. De facto, foi este o ponto de partida do trabalho dramatúrgico e também o seu objectivo oríginal: o resgate vivificador -não arqueológico- de uma subcultura popular deteriorada pelo uso colectivo, e a sua adscrição às formas marginais do acontecimento teatral.

A história do teatro, classista e elitista, legou-nos e engrandeceu uma imagem da arte dramática vinculada aos valores literários de uns textos mais ou menos ilustres, privilégio da escrita.

 Mas, ao lado do teatro como Arte e como Instituição, paralelamente a esse cerimonial complexo e prestigioso que o Poder se apressa a proteger quando não consegue asfixiar, surge outro -submerso, liminar, plebeio- que ergue da superfície da terra o seu tosco artificio. Assim sucede também no chamado Século de Ouro da cultura espanhola. Junto à brilhantez de Lope, Tirso, Calderón, etc, prolifera uma duvidosa multidão de poetaços e mexeriqueiros de versos impróprios, de trapaçeiros e actores “de la legua” que vagabundeiam com a sua arte (?) às costas por vilas, aldeias, herdades e estalagens: “gente folgazona, mal intencionada e viciosa", na opinião de um frade do seu tempo.

Todos os estudiosos que se confrontaram com o complexo problema da condição social do actor, coincidem em sinalizar a antiguidade e a ambivalência do seu status: admirado, invejado, elogiado e inclusivamente glorificado, não obstante, suscita a desconfiança, o desprezo e a hostilidade das classes dominantes ou simplesmente acomodadas.

Em redor da temática da condição do actor e da sua posição na sociedade, concretizada na relação com o público,  desenvolve-se a trama de "Ñaque". Condição precária, ja que a sua debilidade e a sua força dependem do encontro fugaz e sempre incerto com esse ser múltiplo e desconhecido que espreita na sombra da sala e aparentemente só escuta e olha.

Solano e Rios, dois dos comediantes que Agustín de Rojas faz dialogar no seu livro “El viaje entretenido”, desprendem--se aqui da sua identidade real, histórica, para comparecerem diante de nós como fantasmas paradigmáticos da errática e precária condição teatral. Eles são a carne esfomeada e cansada -eterna morada de piolhos- desse espírito que perdura nos textos ilustres.

Já de si efémera, a sua arte está condenada à erosão e à degradação no áspero contacto com o quotidiano: o “fogo sagrado” que os artistas acreditam ser portadores, apenal lhes chega para afugentar os frios do Inverno ou aquecer a malga que alguma vez recebem como pagamento.

Deste modo, chegam ao aqui e ao agora da representação vindos de um longo vagabundear através do espaço e do tempo. Hão-de repetir, ante o público, o seu tosco espectáculo, a meio caminho entre o relato e a interpretação, mas, o cansaço, o aborrecimento, as dúvidas e temores, atrasam, interrompem uma e outra vez a sua actuação num diálogo que -deliberadamente- os aparenta com Vladimir e Estragón, os ambíguos cómicos de Beckett.

Através deste diálogo entrecortado, que constitui mais de metade do texto, Rios e Solano descobrem-nos -e descobrem-se mutuamente- na radical fragilidade da sua condição: vestígios de um tempo remoto, ecos de si mesmo, remendos de um jogo de ficções, sombras de uma arte ilusória e fugaz. E também a sua marginalidade radical: desde os últimos degraus de um ofício desclassificado, a muito custo conseguem ascender à Historia, chegar ao Teatro, deixar vestígios dos seus passos, sobreviver. Destino do actor, que o piolho partilha...

(*) Extracto do nº 186 da revista Primer Acto (Outubro / Novembro 1980). Madrid.

 

FICHA ARTISTICA E TÉCNICA

Actores Miguel Seabra (Rios) e Alvaro Lavín (Solano) Desenho e Realização de Figurinos Maria Luiz e Susana Nogueira Apoio Musical José Pedro Caiado Apoio vocal Sîan Thomas Produtor Executivo Rui Calapez Fotografia e video Pedro Sena Nunes Desenho Gráfico Miguel Salvatierra Tradução José Carlos González Assistente de Encenação Julio Salvatierra Dramaturgia e Adaptação Teatro Meridional Desenho de luzes e Encenação Teatro Meridional Agradecimentos João Mota; J.Sanchis Sinisterra; Comuna Teatro de Pesquisa; Centro cultural de Belém; António Amaral; RESAD Madrid; Sr. Neves; Rosa; Servideo; Drª Angela Duarte.

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