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GERAÇÃO W de José Eduardo Agualusa

 

SOBRE O ESPECTÁCULO

Olhamos à volta e, se nos centrarmos nas pequenas/grandes alterações de vida da última década, sobretudo nos centros urbanos, ficamos certamente surpreendidos com a rapidez com que determinados comportamentos e hábitos foram assimilados – a utilização generalizada de telemóveis por adultos e crianças, a internet, a televisão por cabo – , em suma, aumentaram as fronteiras "imateriais", numa relação quase directa com o aumento de constrangimentos físicos. Com a aceleração, diminuímos o tempo de reflexão e de interacções humanas que nos dão a possibilidade de reaferirmos comportamentos. Conversamos menos, não tendo quem nos ajude a diagnosticar os "erros" nos nossos raciocínios. Por outro lado, com a velocidade imposta por todas as contingências da vida, a informação não tem tempo de ser processada. Por outro lado ainda, a televisão com a sua presença permanente em quase todas as casas, mantêm-nos reféns de necessidades artificialmente criadas, formatando notícias, dimensionando-as em função da sua vendabilidade e impressividade, criando um imaginário a maior parte das vezes amedrontador ao deformar a dimensão real dos acontecimentos e tornando-os, pela sua frequência repetitiva, doentios, sem que tenhamos mecanismos descodificadores para os desconstruir. Hoje, sonhamos com pedofilia, terrorismo, desemprego, seitas religiosas organizadas, ataques virais, guerras químicas, poderes hegemónicos... tudo num total descrédito pelas organizações políticas, judiciais, médicas... E o medo aumenta, encontrando as sociedades canais de saída no futebol, no consumo, na banalidade...

Estamos necessariamente descentrados, cansados, perdidos, desconfiados e com medo. E, necessariamente também, passamos este medo às crianças, tentando acautelar todas as possibilidades de risco. Pedimo-lhes que não falem com estranhos, analisamos obsessivamente os brinquedos com medo de algum angulo cortante, não os deixamos ir brincar para a rua por causa da poluição, do trânsito, dos assaltos e dos desaparecimentos. Culpamo-nos por não ter tempo e paciência para os nossos filhos e engordamo-los de compensações descartáveis. Programamos até à exaustão os seus tempos livres, pois achamos que lhes estamos a dar ferramentas competitivas de preparação para a vida. Que geração estaremos nós a formar, a educar? Como serão capazes, os novos meninos, de inventar o seu tempo para além de todas estas limitações, regras e medos? Que meninos serão estes, que já nascem a saber de tecnologia e têm a mesma necessidade de afecto, igual a todos os homens de todos os tempos? Como serão eles capazes de inventar e autonomizar o seu tempo? Em que valores se reconhecerão? Como serão eles capazes de lidar e ultrapassar todos estes constrangimentos? A convite do Teatro Meridional, José Eduardo Agualusa partiu destes pressupostos para construir este texto. Não houve nunca a pretensão de responder à profunda complexidade que estas questões nos podem colocar. Limitámo-nos a tentar encontrar através de possíveis ficções do quotidiano, alguns "fragmentos de vidas possíveis" em duas células familiares – os Anjos e os Paixão – , fazendo da banalidade, do estereótipo, do humor, da poesia, do excesso e da fragilidade, o ponto de partida para este "Grande Jogo" em que, em última análise, as personagens são um pouco de todos nós.

 

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA

Texto Original José Eduardo Agualusa | Concepção e Encenação Natália Luíza  Interpretação Saturnino Paixão, Benjamim dos Anjos Daniel Martinho Amélia Paixão, Violeta dos Anjos Laurinda Chiungue Expedito dos Anjos, Bolacha Paixão, Assaltante Luís Gaspar Dulce dos Anjos, Elsa Paixão Patrícia Galiano de Abreu |  Espaço Cénico e Figurinos Marta Carreiras | Assistência Artística e Desenho de Luz Miguel Seabra |  Registo de Vídeo Patrícia Poção | Espaço Sonoro Sérgio Delgado | Movimento Jean Paul Bucchieri | Montagem e Operação Técnica José Manuel Rodrigues | Assist. de Encenação Carla Maciel | Fotografia de Cena Rui Mateus e Patrícia Poção | Design Gráfico João Nuno Represas | Consultadoria Jurídica Diogo Salema da Costa | Assessoria de Imprensa Joaquim René | Assist. de Produção Célia Pires | Produção Executiva Paula Nora | Co-Produção Associação Meridional de Cultura e Cena Lusófona | Agradecimentos Natacha Pavlova, Sofia Empis Fogaça, Manuel Mendonça e Mónica Almeida

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